Atenção Primária à Saúde e cuidado centrado no cliente

Publicado em 18 de novembro de 2020, por Ana Giovanoni

imagem de uma moça dando a mão para uma paciente. Essa imagem simboliza o artigo sobre Atenção Primária à Saúde

A Atenção Primária à Saúde (APS) é o primeiro nível de atenção em saúde e se caracteriza por um conjunto de ações de saúde. Isso acontece no âmbito individual e coletivo, que abrange:

  • a prevenção de agravos;
  • o diagnóstico;
  • o tratamento; 
  • a reabilitação; 
  • a redução de danos e a manutenção da saúde.

Todos estes itens tem o objetivo de desenvolver uma atenção integral que impacta positivamente nas coletividades. Trata-se da principal porta de acesso para o cliente avaliar seu estado de saúde

No Brasil, a APS é desenvolvida de forma descentralizada, ficando no local mais próximo da vida das pessoas pelo atendimento nas Unidades de Saúde da Família. 

Desta forma, funciona como porta de entrada para a população. Um dos programas governamentais com esta finalidade é a Estratégia de Saúde da Família (ESF)

A estratégia é diferente para a população que utiliza o serviço de saúde privado. Assim, as operadoras de planos de saúde têm sido incentivadas pela ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) a adotar o modelo de APS como porta de entrada para os beneficiários que necessitam de cuidados de saúde. 

Neste artigo, vamos compreender o modelo de saúde atual, especialmente, com o olhar para a saúde suplementar. E também compreender a relevância da aplicação da APS para centralizar o cuidado do cliente na promoção e prevenção da sua saúde. E não, simplesmente no tratamento da doença. 

O modelo de saúde brasileiro e o cuidado centrado no cliente

O modelo do negócio de saúde no Brasil, desde o final da década de 80, início de 90, até há pouco, foi e ainda é centrado num modelo hospitalocêntrico. Desta forma, tendo uma escala quase infindável de realização de inúmeros exames complementares (muitas vezes desnecessários) e numa forma de remuneração dos serviços baseada no volume (produção). 

Este modelo de remuneração, chamado fee for service, pode induzir à prática do excesso de procedimentos como forma de aumentar a remuneração e não incentiva o valor/qualidade (produtividade). Diferente do chamado Value Based Healthcare, que  prioriza o desfecho clínico/cirúrgico. 

No modelo fee for service quanto mais doenças/doentes, internações, exames (laboratoriais, imagens e gráficos), procedimentos médicos, hospitais gerais com grandes emergências e muitos leitos de CTI, melhor para os “negócios da saúde”. O marketing da doença foi e ainda é muito potente! 

A população, por outro lado, é pouco informada sobre saúde. Portanto, culturalmente, considera “bom tratamento”, aquele no qual o médico solicita muitos exames e prescreve um receituário completo para todas as suas dores. 

Muitas vezes, a família solicita ao médico a internação do familiar para que o mesmo tenha todos os cuidados no ambiente hospitalar. Assim, incentivando o modelo hospitalocêntrico. 

Quantidade de exames vs. efetividade do desfecho clínico

Outro hábito muito comum no Brasil, é a busca por especialistas pelo próprio beneficiário do plano de saúde. Por exemplo, se sinto dores de cabeça, procuro um neurologista e espero que ele solicite uma tomografia computadorizada, ou até uma ressonância. Será que este é o melhor caminho para tratar a minha dor de cabeça?

Talvez, essa dor de cabeça seja decorrente de um descompasso da pressão arterial e possa ser diagnosticada na atenção primária. Porém, culturalmente, pensamos que primário é simples, é superficial ou é pouco efetivo. 

Estamos completamente equivocados! Primário é o primeiro acesso. É a alternativa para encontrar o melhor caminho para o tratamento do indivíduo. Para isto é preciso praticar o bom exame clínico. 

O ressurgimento da Atenção Primária à Saúde

Por volta de dois anos para cá, principalmente pelos elevados custos assistenciais, estamos observando uma alteração no modelo do negócio da saúde. Portanto, a forma de atenção à saúde vem se destacando de maneira mais urgente, tanto no setor público quanto no setor privado. 

Atenção à saúde prioriza um cuidado mais centrado na pessoa/paciente e na família. E está relacionada a boa medicina clínica, alicerçada em: mais tempo para a escuta do paciente, uma boa anamnese e um bom exame clínico/físico. 

Há 35 anos atrás praticávamos uma medicina high touch e low tech (muito contato e pouca tecnologia), quando hoje a medicina está high tech e low touch (muita tecnologia e pouco contato). Devemos trabalhar para equalizar melhor esta dinâmica, fomentando uma prática médica high tech e high touch (muita tecnologia e muito contato).

Estamos falando do ressurgimento da Atenção Primária à Saúde(APS), não só no Brasil mas em outros países mais desenvolvidos também. O nome não é muito “glamouroso”, pois o primário pode parecer básico demais, simples demais, sem muito charme, o brasileiro não gosta de nada muito básico, não é mesmo? 

Mas o conceito e a prática da APS são fatores cruciais para a retomada da prática da boa medicina com o uso mais racional e menos comercial dos recursos (humanos, de propedêutica e terapêutica) de saúde. 

APS predispõe em sua essência o “cuidado da pessoa” no seu contexto familiar, com a identificação de suas ideias e emoções a respeito do adoecer e a resposta a elas. 

Portanto, busca relacionar e identificar objetivos comuns entre profissionais de saúde e pacientes sobre a doença e sua abordagem, com o compartilhamento de decisões e responsabilidades. 

O atendimento centrado no paciente deve orientar todos os aspectos do planejamento, prestação e avaliação dos serviços de saúde.

O desafio de transformar a cultura e implantar a Atenção Primária em Saúde

A cultura hospitalocêntrica, da busca pelo médico especialista e da ênfase na doença e no modelo de remuneração baseado em volume, precisa ser modificada. Sabemos que a mudança é difícil. Gera muitas resistências e exige:

  • continuidade, 
  • boas práticas de gestão em saúde e muita determinação da liderança para sustentar a implantação de um novo modelo centrado no cliente; 
  • na pessoa como ser integral;
  • no bom exame clínico;
  • na centralização das informações desta pessoa como forma de permitir o olhar completo para este ser; e 
  • definir a melhor alternativa para tratar este indivíduo com o olhar para o futuro.

Tudo isso para a promoção e preservação da sua saúde.

Isto exige mudança de mindset de todos os atores da cadeia produtiva. Desde os órgãos reguladores, as operadoras de planos de saúde, os prestadores de serviços de saúde e, principalmente os usuários dos serviços de saúde com maior consciência sobre os seus hábitos e estilo de vida. De forma que todos estejam engajados com o completo bem-estar físico, mental, espiritual, social e emocional das pessoas. 

Só assim, teremos mais saúde, menos doença e iremos envelhecer com mais qualidade de vida.

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Comentários

1 Comment

  • Karen Alencar Pereira 19 de novembro de 2020 at 11:17 pm

    Excelente artigo.
    Praticar a APS faz bem para o paciente (principalmente) e faz bem para a operadora, é uma ação que precisa ser retomada e valorizada o quanto antes.

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