Por que gerenciar eventos adversos?

Publicado em 11 de setembro de 2019, por Ana Giovanoni

Imagem de um profissional da saúde com as mãos no joelho representando a ansiedade gerada pela ocorrência de eventos adversos.

As pessoas sempre me consultam sobre a necessidade de identificar, registrar, definir ações corretivas e prevenir eventos adversos em estabelecimentos de saúde que estão fora do ambiente hospitalar. E o questionamento é sempre o mesmo:

Ana, mas pra que registrar eventos adversos, por exemplo, num laboratório de análises clínicas?

É um pouco mais simples do que parece, pois a minha resposta é que qualquer estabelecimento de saúde está sujeito a gerar um evento adverso. Dessa forma, precisa estar atento, treinar as pessoas da sua equipe e manter todos informados sobre o conceito e a necessidade de registro destes eventos.

Outra dúvida que sempre aparece é:

Mas Ana, a legislação do meu segmento não obriga a gerenciar evento adverso… então porque eu deveria fazer esta atividade?

Por outro lado, eu sugiro a seguinte reflexão: será que eu só faço aquilo que é obrigatório por lei? Ou estou fazendo atividades e práticas que fazem sentido para mim, para meu negócio e principalmente estão alinhadas com as entregas que eu quero fazer para o meu cliente?

Neste sentido, me desafiei a escrever sobre o propósito que nos inspira para gerenciar eventos adversos em qualquer estabelecimento de saúde.

O que são eventos adversos?

Segundo a RDC Nº 36 de 25 de julho de 2013, evento adverso é um incidente que resulta em dano à saúde. O objetivo desta resolução é instituir ações para promoção da segurança do paciente e a melhoria da qualidade dos serviços de saúde.

Como exemplos de eventos adversos, podemos citar: medicações ministradas de forma errada; pacientes que caem do leito; erro na identificação correta do paciente, ocasionando laudos equivocados; entre outras situações.

Em seu parágrafo único, a resolução menciona que estão excluídos no escopo desta resolução, os consultórios individualizados, laboratórios clínicos e os serviços móveis e de atenção domiciliar. Este é o fato gerador de dúvidas por parte dos estabelecimentos de saúde, em especial os que estão excluídos do cumprimento desta resolução.

Por outro lado, o Programa QUALISS, instituído pela ANS, incentiva à melhoria da qualidade dos serviços de saúde e propõe o registro e gestão de eventos adversos para todos os estabelecimentos prestadores de serviços de saúde.

Este estímulo faz parte de um dos objetivos perseguidos pela Agência Nacional de Saúde Suplementar, que é melhorar a segurança dos clientes (lembrando que esse também é um atributo de qualidade a ser perseguido pelos prestadores de serviços de saúde suplementar).

A importância da notificação dos eventos adversos

O Notivisa é um sistema informatizado desenvolvido pela Anvisa para receber notificações de incidentes, eventos adversos e queixas técnicas relacionadas ao uso de produtos e de serviços que estão sob vigilância sanitária.

A ANS divulga em seu portal as informações sobre os prestadores de serviços de saúde suplementar que registram seus eventos adversos no Notivisa, como um atributo de qualidade. Logo, se quisermos ir além dos aspectos legais e estarmos alinhados ao cuidado centrado no cliente, é uma boa prática identificar, registrar, analisar, definir ações corretivas e preventivas para tratar e/ou evitar eventos adversos.

Cada vez mais, a população terá acesso às informações registradas nos órgãos fiscalizadores e/ou reguladores e poderá escolher o serviço de saúde que melhor atenda suas necessidades. Os clientes confiam (e tendem a confiar) muito mais nos serviços de saúde que registram e tratam seus eventos adversos, impactando positivamente na sua imagem e reputação.

Indo além das normas e regulamentações: a experiência do cliente

Segundo o Beryl Institute, comunidade global referência sobre o tema, a  experiência do cliente é a somatória de “todas as interações, moldadas pela cultura da organização, que influenciam a percepção do cliente por meio da continuidade do cuidado”. Ou seja, ela é verificada em todas as interações pelas quais o cliente passa no ambiente da instituição de saúde.

Assim, traçar estratégias, práticas e processos para aprimorar a experiência do cliente tem se tornado um desafio para as instituições de saúde por todo o mundo!

Nesta trajetória do cliente, passando pelos diversos processos da organização, ele poderá sofrer um incidente que cause dano à sua saúde, ou seja, um evento adverso. Vamos exemplificar com um caso prático ocorrido recentemente em uma clínica de fisioterapia no interior do estado do RS.

Um caso real sobre o impacto dos Eventos Adversos

Uma senhora de 80 anos estava realizando sessões de fisioterapia para recuperação de um processo cirúrgico no joelho. O tratamento estava ótimo, a cliente estava se recuperando rapidamente e demonstrando elevado nível de satisfação.

Entretanto, na última das 20 sessões previstas em seu tratamento, ocorreu um incidente. A cliente, ao descer sozinha da maca, se desequilibrou e fraturou a bacia.

Esta queda é um evento adverso que prejudicou a experiência, certamente gerou um desagrado ao cliente e aos seus familiares, com consequências irreparáveis! Acidentes como esses podem ser mais comuns do que se imagina e podem voltar a acontecer facilmente caso não sejam tratados.

Não importa a regra ou norma, o importante é a saúde do cliente!

Portanto, para mim, independente de normas ou regulamentações obrigarem ou não a tratativa dos eventos adversos, fica muito clara a razão pela qual devemos gerenciá-los:

Porque isso é uma questão de cuidado centrado no paciente, de preservar sua vida e saúde. Além de evitar que a instituição tenha prejuízos futuros e que sua reputação da seja prejudicada!

Espero que esta publicação sensibilize empresários, gestores e profissionais da saúde a levarem a sério a notificação dos eventos adversos e o seu devido tratamento com ações contínuas de desenvolvimento e capacitação das pessoas em prol da efetividade deste processo de gerenciamento.

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Comentários

1 Comment

  • Bruna Melo 11 de setembro de 2019 at 11:43 am

    Que massa, Ana! Outro dia eu enviei exatamente essas perguntas e pedi pra fazerem um post falando sobre isso pra nos explicar melhor já que se fala tão pouco em laboratório de análises clínicas. Grata!

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