ONA 2026: como preparar sua instituição para a nova versão

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Victor Assis

A ONA 2026 representa a maior transformação já realizada no sistema brasileiro de acreditação. Entenda o que mudou, por que importa e como sua instituição pode se preparar para este novo ciclo.

Neste artigo

  1. O que é o Manual ONA 2026?
  2. Principais mudanças do Manual OPSS 2026
  3. A jornada do paciente como eixo central
  4. O que muda na prática durante as auditorias?
  5. Como preparar sua instituição para a ONA 2026
  6. Desafios que as instituições vão enfrentar
  7. Perguntas frequentes (FAQ)
  8. Conclusão

Em dezembro de 2025, a Organização Nacional de Acreditação (ONA) lançou oficialmente o Manual OPSS 2026. Um documento que não é apenas uma atualização de requisitos, mas uma revisão integral da base normativa e estratégica da acreditação em saúde no Brasil.

Válido para o ciclo 2026–2030, o novo manual substitui a versão anterior (2022/2025) e traz uma mudança de paradigma: a acreditação deixa de ser um checklist de conformidade e passa a ser um modelo de maturidade organizacional, com a jornada do paciente como fio condutor de toda a avaliação.

Para coordenadores da qualidade, gestores hospitalares e profissionais de segurança do paciente, compreender essas mudanças com profundidade é o primeiro passo para garantir uma transição bem-sucedida. Este artigo reúne o que há de mais relevante sobre o novo manual e oferece um roteiro prático de preparação.

O que é o Manual ONA 2026?

O Manual das Organizações Prestadoras de Serviços de Saúde (OPSS) é o referencial brasileiro que define os padrões de qualidade, segurança e gestão utilizados como base para o processo de acreditação hospitalar conduzido pela ONA, a principal entidade de acreditação em saúde no país.

O Manual OPSS 2026 representa a maior atualização já realizada nesse sistema. Diferentemente de versões anteriores, que promoviam ajustes pontuais, esta edição revisou integralmente as Normas Orientadoras, as Normas de Avaliação e a própria estrutura da jornada de acreditação. O trabalho foi construído de forma colaborativa, envolvendo especialistas, Instituições Acreditadoras Credenciadas (IACs), avaliadores, organizações de saúde, sociedades científicas, associações e representantes de pacientes.

Período de vigência: O Manual OPSS 2026 é válido para o ciclo 2026–2030, com início imediato a partir do lançamento em dezembro de 2025. Instituições que buscam ou renovam a acreditação ONA já serão avaliadas sob os novos critérios.

A estrutura principal mantém quatro seções: Gestão Organizacional, Atenção ao Paciente (Jornada do Paciente), Diagnóstico e Terapêutica e Gestão de Apoio. O que muda é a forma como os requisitos dentro dessas seções são organizados, interpretados e avaliados na prática.

ONA Nível 1

Acreditado: estrutura e processos básicos atendidos

ONA Nível 2

Acreditado Pleno: gestão integrada e melhoria contínua

ONA Nível 3

Acreditado com Excelência: alta maturidade e inovação

Quais são as principais mudanças do Manual OPSS 2026?

A nova versão vai muito além de uma revisão incremental. As mudanças tocam a estrutura do manual, a lógica de avaliação, os requisitos exigidos e os tipos de serviços elegíveis para acreditação. Veja os principais pontos:

Novo foco na jornada do paciente

A Seção 2 passa a ter a experiência e a segurança do paciente como eixo estruturante. A jornada, que antes era avaliada indiretamente por meio de processos isolados, agora está explicitamente estruturada dentro do manual, cobrindo desde o primeiro contato do paciente com o serviço de saúde até a continuidade do cuidado após a alta. Abordaremos esse ponto em detalhes na seção seguinte.

Criação e reestruturação dos requisitos transversais

Os requisitos transversais foram reformulados para eliminar redundâncias e garantir maior clareza na avaliação. Eles agora transitam por todas as áreas da organização e não ficam restritos a setores específicos. Isso significa que segurança do paciente, gestão de riscos e controle de infecções, por exemplo, passam a ser avaliados de forma integrada ao longo de toda a jornada.

Fortalecimento da governança, ESG e sustentabilidade

A Seção 1 incorpora subseções voltadas a aspectos ambientais, sociais e de governança (ESG). Os blocos temáticos foram reorganizados em torno de quatro eixos: Liderança e Governança, Pessoas e Fatores Humanos, ESG e Jornada do Paciente. Isso alinha a acreditação às demandas contemporâneas de responsabilidade socioambiental e governança corporativa no setor de saúde.

Inclusão de novos serviços assistenciais

O novo manual amplia o escopo dos serviços elegíveis para acreditação. Entre os novos perfis contemplados estão:

Clínicas de Vacinação

Serviços especializados em imunização passam a ter requisitos específicos dentro do manual.

Saúde Mental

Serviços de saúde mental têm agora critérios próprios alinhados à integralidade do cuidado.

ILPIs

Instituições de Longa Permanência para Idosos contam com requisitos adaptados ao seu perfil.

Outros serviços

Anatomia patológica, atenção primária, telemedicina, atendimento pré-hospitalar e odontologia.

Novos modelos de acreditação em rede

O manual introduz dois novos modelos que reconhecem diferentes formas de organização institucional:

  • Acreditação em Rede Assistencial: destinada a sistemas, grupos e redes com governança unificada do paciente.
  • Acreditação em Rede Corporativa: voltada a estruturas com governança administrativa centralizada.

Integração de tecnologia e inteligência artificial

Pela primeira vez, o manual contempla a integração com sistemas digitais e o suporte à inteligência artificial como parte dos requisitos de gestão. Isso reflete o reconhecimento de que a transformação digital é um elemento estrutural (e não opcional) na gestão da qualidade em saúde.

AspectoManual Anterior (2022/2025)Manual OPSS 2026
Foco centralConformidade por seção/setorJornada do paciente como eixo integrador
Requisitos transversaisFragmentados por áreaIntegrados e eliminação de redundâncias
GovernançaFoco em estruturaESG + maturidade organizacional
Serviços elegíveisPerfil predominantemente hospitalarAmpliação para novos perfis assistenciais
TecnologiaNão contemplada explicitamenteDigitalização e IA incluídas
Modelos de acreditaçãoModelo únicoRede Assistencial e Rede Corporativa

A jornada do paciente passa a ser o centro da avaliação

Esta é, sem dúvida, a mudança mais estrutural da ONA 2026. A jornada do paciente deixa de ser um conceito implícito para se tornar o eixo organizador de toda a avaliação. A Seção 2 do manual é reformulada para que cada requisito seja lido sob a perspectiva da experiência integral do paciente: desde o momento em que ele percebe a necessidade de cuidado até a continuidade do tratamento após a alta.

A acreditação deixa de ser sobre a organização dos documentos e passa a ser sinônimo de transformação cultural, afetando a forma de pensar e vivenciar a gestão da qualidade em toda a instituição, conceito central do Manual OPSS 2026.

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Na prática, a jornada está estruturada em seis momentos principais. Cada um deles requer processos assistenciais demonstráveis, não apenas documentados:

1 – Conscientização da necessidade de cuidado

O momento em que o paciente identifica que precisa de atenção à saúde. O manual passa a avaliar como a instituição se posiciona para atender a essa demanda de forma acessível, segura e humanizada, incluindo canais de informação, comunicação e educação em saúde.

2 – Busca e agendamento

O acesso ao serviço e os processos de marcação de consultas, exames ou internações passam a ser avaliados como parte crítica da experiência. Tempo de espera, clareza das informações e facilidade de acesso são dimensões que integram os critérios.

3 – Chegada e acolhimento

A recepção, a triagem e o acolhimento inicial ganham peso no processo avaliativo. O manual reforça a importância de processos padronizados de classificação de risco, identificação do paciente e comunicação efetiva desde o primeiro contato presencial.

4 – Diagnóstico e tratamento

Esta etapa abrange toda a linha de cuidado assistencial (consultas, procedimentos, internação, exames, medicação). É onde a maioria dos requisitos técnicos se concentra, com forte ênfase na integração entre áreas e na segurança do paciente como fio condutor.

5 – Alta

O processo de alta (incluindo comunicação com o paciente, planejamento de cuidados pós-alta, reconciliação medicamentosa e entrega de documentação) passa a ser avaliado com rigor. A alta não é o fim; é uma transição que precisa ser gerenciada.

6 – Continuidade do cuidado

A avaliação agora contempla o que acontece após a saída do paciente: retornos programados, contrareferência, monitoramento de resultados e integração com a rede assistencial. Isso exige que a instituição pense além dos seus muros.

Atenção: Farmácia e nutrição ilustram bem essa lógica. A assistência ao paciente continua vinculada à jornada, enquanto as atividades de produção e suporte operacional passam a ser tratadas dentro da gestão de apoio, evidenciando a separação clara entre cuidado direto ao paciente e suporte operacional.

O que muda na prática durante as auditorias?

Se há uma mensagem que resume o impacto da ONA 2026 no dia a dia das avaliações, é esta:

Não basta ter o processo documentado. É preciso demonstrar que ele funciona ao longo da jornada do paciente.

A mudança de abordagem nas auditorias é significativa. Em resumo, os avaliadores das Instituições Acreditadoras Credenciadas (IACs) passarão a observar:

Menos foco em documentos isolados

Protocolos e procedimentos operacionais continuam necessários, mas deixam de ser a principal evidência de conformidade.

Mais foco na aplicação prática

O avaliador quer ver o processo funcionando em campo, na beira do leito, nas interações reais da equipe.

Prontuários mais relevantes

O prontuário passa a ser o principal espelho da jornada. A qualidade dos registros clínicos tem peso maior na avaliação.

Equipe preparada para demonstrar

Profissionais precisam ser capazes de descrever os processos com clareza, não apenas saber onde o documento está salvo.

A CCIH (Comissão de Controle de Infecção Hospitalar), por exemplo, passa a ser avaliada de forma transversal ao longo de toda a jornada do paciente, com integração obrigatória aos processos de segurança do paciente, governança clínica e alta confiabilidade. Não será mais possível apresentar a CCIH como um setor autônomo. Ela precisa estar presente, de forma visível, em cada etapa da assistência.

Implicação direta: Instituições que investiram apenas em documentação durante anos precisarão promover uma virada cultural. A qualidade precisa sair do papel e se instalar nos processos, nas pessoas e na rotina assistencial.

Como preparar sua instituição para a transição para a ONA 2026

A preparação para o novo ciclo exige uma abordagem estruturada. Não se trata de “atualizar o manual na pasta”, é necessário rever processos, engajar lideranças e construir evidências consistentes. Veja o roteiro recomendado:

  1. Realize um diagnóstico inicial: Compare os requisitos do Manual OPSS 2026 com os processos atualmente em vigência na sua instituição. Identifique os gaps estruturais antes de qualquer outro passo. Este diagnóstico deve contemplar tanto aspectos documentais quanto evidências práticas de funcionamento.
  2. Mapeie a jornada do paciente: Documente com fidelidade os seis momentos da jornada aplicados ao seu contexto: conscientização, busca e agendamento, chegada e acolhimento, diagnóstico e tratamento, alta e continuidade do cuidado. O mapeamento deve ser feito com a participação das equipes assistenciais, não apenas pela área de qualidade.
  3. Revise seus processos assistenciais: Avalie se os protocolos existentes refletem a realidade praticada. Ajuste os processos que existem apenas no papel. Promova simulações e observações diretas para validar a aderência real das equipes às diretrizes documentadas.
  4. Avalie os requisitos transversais: Verifique como os temas transversais (segurança do paciente, gestão de riscos, controle de infecções, ESG) estão integrados a cada setor. Eles precisam aparecer de forma consistente em todas as etapas da jornada, não apenas em setores específicos.
  5. Identifique os gaps de conformidade: A partir do diagnóstico e do mapeamento, priorize os pontos de maior risco e menor conformidade. Crie uma matriz de gaps com grau de criticidade, área responsável e prazo estimado para resolução.
  6. Estruture um plano de adequação: Transforme os gaps identificados em ações concretas com responsáveis definidos, prazos e indicadores de acompanhamento. O plano deve ser aprovado e monitorado pela liderança. A ONA 2026 valoriza explicitamente o engajamento da alta direção na gestão da qualidade.

Atenção especial ao prontuário: Como o prontuário passa a ser o principal espelho da jornada do paciente, revisar a qualidade e completude dos registros clínicos é uma das ações de maior impacto imediato. Deficiências no prontuário que antes tinham peso relativo passam a ser evidências críticas de não conformidade.

Os desafios que as instituições devem enfrentar

A transição para o novo modelo de acreditação não é trivial. Com base nos principais temas discutidos entre especialistas e avaliadores do setor, estes são os obstáculos mais recorrentes que as instituições terão de enfrentar:

Estruturar a jornada do paciente na prática

Mapear a jornada formalmente é o passo inicial, mas o desafio real é garantir que ela esteja viva nos processos cotidianos, não apenas na documentação.

Fortalecer a cultura de gestão de riscos

O manual reforça a gestão proativa de riscos como pilar central. Instituições ainda em estágio reativo precisarão avançar significativamente nessa dimensão.

Integrar áreas assistenciais

A lógica transversal exige que setores antes operando em silos (como CCIH, farmácia e nutrição) passem a funcionar de forma integrada ao longo da jornada.

Consolidar evidências práticas

Substituir a evidência documental por evidências de efetividade assistencial requer mudança de cultura, capacitação e redesenho de processos.

Engajar lideranças

A ONA 2026 valoriza explicitamente o papel da governança. Lideranças que ainda veem a acreditação como “assunto da qualidade” precisarão ser envolvidas de forma genuína.

Incorporar ESG à gestão

Para muitas instituições, ESG ainda é um conceito distante da operação. Incorporar responsabilidade socioambiental como requisito avaliável exigirá planejamento e comprometimento institucional.

Perguntas frequentes sobre a ONA 2026

A ONA 2026 exige menos documentação?

Não. A documentação continua sendo uma exigência do processo de acreditação. O que muda é o seu papel: ela passa a funcionar como evidência de suporte, e não como evidência central de conformidade.

O foco principal da avaliação migra para a efetividade dos processos assistenciais, ou seja, para a demonstração prática de que os processos documentados realmente funcionam ao longo da jornada do paciente. Ter o protocolo escrito sem conseguir demonstrá-lo na prática será, a partir de agora, considerado insuficiente.

Instituições já acreditadas precisam refazer tudo?

Não do zero. Instituições com acreditação vigente continuam reconhecidas, mas precisarão se adequar ao novo manual no próximo ciclo avaliativo. O recomendado é iniciar o diagnóstico de gaps com antecedência para não chegar à renovação sem tempo hábil de adequação.

A boa notícia é que organizações que já tinham maturidade na gestão da qualidade tendem a ter uma transição mais tranquila, pois muitos dos princípios (integração, segurança do paciente, melhoria contínua) já fazem parte de sua cultura.

O que são os requisitos transversais na ONA 2026?

São requisitos essenciais, considerados críticos, que precisam ser atendidos obrigatoriamente por todas as organizações avaliadas, independentemente do perfil ou porte. Eles garantem padrões mínimos de qualidade e segurança e perpassam todas as seções do manual.

No novo formato, esses requisitos transitam por toda a jornada do paciente, não ficando restritos a setores ou seções específicas. Isso elimina redundâncias que existiam no modelo anterior e cria uma visão mais integrada da avaliação.

Quando o Manual OPSS 2026 entra em vigor?

O manual foi lançado oficialmente em 9 de dezembro de 2025 e passou a valer imediatamente para o ciclo 2026–2030. Instituições que iniciarem processos de avaliação ou renovação a partir de 2026 já serão avaliadas pelos novos critérios.

Serviços de telemedicina podem ser acreditados pela ONA 2026?

Sim. O Manual OPSS 2026 contempla serviços de telemedicina como um dos perfis elegíveis para acreditação. Além disso, o novo manual prevê explicitamente a integração com sistemas digitais e o suporte à inteligência artificial como parte dos requisitos de gestão, reconhecendo o papel da tecnologia na qualidade e segurança assistencial.

Conclusão

O Manual OPSS 2026 não representa apenas uma atualização de requisitos, é uma mudança de paradigma na forma como as instituições de saúde devem pensar e demonstrar a qualidade assistencial.

Ao colocar a jornada do paciente no centro da avaliação, o novo manual exige que a acreditação deixe de ser um exercício de conformidade documental e se torne evidência concreta de uma assistência segura, integrada e centrada no ser humano. Isso exige transformação cultural e transformações culturais levam tempo.

Instituições que iniciarem a preparação agora (com diagnóstico honesto, mapeamento real da jornada e engajamento genuíno das lideranças) estarão significativamente mais preparadas para o novo ciclo avaliativo. Aquelas que adiarem essa discussão para “próximo do processo” enfrentarão pressão de tempo e risco de conformidade.

O caminho para a ONA 2026 começa com uma pergunta simples: como o seu paciente vive cada etapa do cuidado na sua instituição? Se a resposta ainda está apenas nos documentos, é hora de levar a qualidade para onde ela precisa estar na prática assistencial.

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