O desafio da liderança durante e pós pandemia

Publicado em 29 de abril de 2020, por Ana Giovanoni

Imagem de uma criança olhando para o primeiro degrau de uma longa escada. Essa imagem simboliza o desafio da liderança.

Em novembro de 2019, tive o privilégio de participar de um encontro em São Paulo do grupo Mulheres & Propósitos. Este grupo reúne mulheres maravilhosas, especiais por seu propósito de atuar coletiva e colaborativamente apoiando iniciativas para um mundo melhor, mais humano e fraterno. Pode ser que você não veja conexão disso com o desafio da liderança, mas leia o texto para que possa entender.

Meu papel neste encontro foi inspirar a criação do propósito do grupo. Adorei conhecer tantas pessoas maravilhosas e foi um grande aprendizado para mim. Neste dia tive o privilégio de ouvir o canto de uma mulher maravilhosa, Aline Andrade, que nos presenteou com uma bandeira do Brasil inspiradora. 

Esta bandeira tem a adição da palavra Amor no seu centro, ou seja: Amor, Ordem e Progresso.  Desenvolver amor pela humanidade é um desafio de todos. E também um desafio da liderança.

Amor, Ordem e Progresso
Amor, Ordem e Progresso

A OMS anunciou que a depressão é a doença que mais incapacitaria os profissionais do mundo todo em 2020. O Brasil é o país com maior índice de depressão e ansiedade da América Latina, e falando em todas as Américas, só fica atrás dos Estados Unidos. 

Esses dados foram analisados em 2019, quando não se falava em COVID-19 e nem em crise econômica global. Imaginem como este índice poderá subir agora? 

Nossos líderes estão preparados para gerenciar suas equipes diante do vazio existencial e da instabilidade emocional das pessoas neste cenário de incertezas e medo? É sobre isto que quero refletir junto com você, leitor do blog qualidade para saúde.

O que as lideranças precisam desenvolver para atuar neste cenário?

As pessoas não querem mais ouvir palavras bonitas, discursos teóricos que não são vivenciados na prática. É preciso ter líderes que atuam de forma coerente com suas palavras. Ninguém mais suporta fazer algo para “agradar” este ou aquele, se isto não está alinhado aos valores e ao propósito da empresa. 

Vou dar alguns exemplos que podem esclarecer o que estou dizendo:

  • Falar que temos que ter qualidade na assistência à saúde e criar “atas fake”;
  • Preencher formulários na semana que antecede as auditorias;
  • Falhar nas notificações de eventos adversos ou registros assistenciais;
  • Preparar protocolos para COVID-19 que não são cumpridos na íntegra.

Podemos levantar vários outros casos. Tudo isso é um ataque à consciência que está sendo desenvolvida nas pessoas, durante o período de isolamento social. 

Quem está aproveitando este momento para refletir sobre o seu propósito de vida alinhado ao trabalho que realiza, certamente está buscando um novo momento. Ou seja, o novo líder precisa inspirar seus liderados por meio dos seus valores, exemplificados através das ações que realiza. 

Não há mais espaço para uma liderança que só planeja o “ter”: ter mais clientes; ter mais equipamentos; ter mais espaço físico; ter mais unidades; ter mais faturamento…ter… ter e ter… 

É preciso desenvolver a liderança do “ser”: ser mais afetivo; ser mais colaborativo; ser mais participativo; ser mais criativo; ser mais humano; ser mais coerente entre discurso e prática com valores e atitudes condizentes com estes valores. Esse o maior desafio da liderança.

Este é um exercício diário, que todos precisamos praticar. Eu já estou fazendo a minha parte!

A liderança e a saúde mental dos colaboradores em tempos de crise

A pesquisa Carreira dos Sonhos, realizada em 2019, pela Companhia de Talentos e publicada em 13 de abril de 2020 na revista Exame no artigo “Este é o traço essencial das lideranças que sabem enfrentar uma crise”, revelou que apenas 37% dos profissionais brasileiros confiam em seus gestores. 

Sem confiança, não há inovação, não há criatividade, não há progresso. Isto demonstra que os profissionais estão em busca de ambientes corporativos mais transparentes e coerentes ao seu discurso. Agora, diante da crise isso ganha mais relevância ainda.

Sabemos que a maioria dos profissionais neste momento estão com medo de se contaminarem ou contaminarem seus familiares, de perderem seus empregos, de terem seus salários e carga horária reduzida ou até de terem de postergar seus sonhos de consumo (viagens, lazer, bens materiais) e isto provoca um desequilíbrio emocional. 

Neste momento, as lideranças estão construindo a sua imagem, demonstrando o seu carisma, empatia e afeto com seus profissionais, apoiando-os e tratando-os de forma individualizada, cada um com seu perfil e necessidade. 

Este momento marcará a vida de todos nós. Com certeza seremos diferentes e muito melhores se soubermos construir laços de afeto e compaixão com as pessoas com as quais convivemos. 

Liderar neste momento é mais do que saber gerenciar fatos e dados, administrar recursos e implementar estratégias, é acima de tudo ser um líder que se importa com a sua equipe e que é um exemplo de humanização e afeto no tratamento das pessoas.  

É importante salientar que a liderança amorosa não é complacente com maus hábitos e atitudes nocivas à saúde da empresa e das pessoas. É uma liderança que se importa com o seu colaborador, procura entender o que está acontecendo na sua vida naquele momento e de que forma isso poderá impactar seu trabalho. Com isso, oferece suporte e orientação para que o liderado possa encontrar o seu caminho. 

Conciliar o propósito da empresa com aquilo que faz sentido na vida do trabalhador, num ambiente de afeto, contribui para a redução da ansiedade e depressão.

A empatia é o principal aliado no desafio da liderança

É na crise que aflora o espírito colaborativo e presenciamos cenas de generosidade na qual a tendência é que haja mais demanda do que por oferta de empatia.

Usualmente, pensamos que empatia é a habilidade de nos colocarmos no lugar do outro. De fato, não é isto! É vivenciar, experienciar o que o outro está passando. Neste momento, não podemos dizer, por exemplo, “eu compreendo”; “eu já passei por isto”; eu sei como você se sente”, porque de fato nunca vivenciamos isto e nem podemos assumir o protagonismo, que deve ser do outro. O que fazer neste momento?

O primeiro passo é acolher, sem julgar ou aconselhar!

Eu gosto muito da definição de empatia, do Thomas Brieu, neurocientista e especialista em comunicação produtiva, que diz:

“Demonstrar empatia é fazer com que o outro sinta que suas necessidades foram escutadas e acolhidas, embora nem sempre nos identifiquemos ou concordemos com elas.”

E como podemos agir em tempos de home office?

A precisão e clareza da nossa fala e escuta, mesmo que à distância, podem dar provas de empatia, que ocorrem especialmente, quando:

  • Inspiramos antes de responder para evitar respostas reativas;
  • Nos interessamos pela visão do outro, fazendo perguntas abertas, numa postura de abertura física e mental;
  • Acolhemos as palavras do outro, sem concordar ou discordar, ou seja, sem julgar;
  • Criamos uma história personalizada utilizando o máximo de palavras usadas pelo outro, repetindo-as numa narrativa: … quando você me disse…. (reconstrua a história com o máximo de palavras do outro).

Assim, você contribuirá para o que o outro possa refletir sobre sua história e lhe apoie para encontrar o melhor caminho. 

Certamente, você deve estar se perguntando, como farei isto? Exercitando, treinando, aperfeiçoando diariamente a nossa comunicação. Percebe quanto temos que aprender para viver nesta nova era? 

A liderança que souber atuar de forma empática terá ambientes mais amorosos, gerando menos estresse e aumentando a produtividade das equipes.

Por quais motivos você quer ser lembrado?

Certamente não teremos mais o mundo que tínhamos antes da pandemia; teremos um novo cenário, um novo tempo, uma nova era, um mundo diferente, no qual nosso maior valor será o que entregamos de melhor para contribuir com as pessoas com as quais interagimos. 

Você já pensou como gostaria de ser lembrado? Reflita sobre o líder que você é, suas habilidades e comportamentos e de que forma pode contribuir com um ambiente mais humano e afetivo em sua empresa. Exercite!

Espero ter inspirado você a pensar diferente, aprender, desaprender e reaprender para tornar os ambientes corporativos mais humanos, coerentes e alinhados aos seus valores e propósito. Faça sua parte no desafio da liderança.

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